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No reino da Dinamarca

Terça-feira, 26.01.16

As minhas viagens realizaram-se através dos filmes e dos livros. Digamos que da família sou a menos viajada. Construí uma imagem dos países e das regiões através do Atlas e dos seus escritores e realizadores.


É assim que conheço bem a geografia das montanhas e das planícies da América, a costa escarpada e a relva pontilhada de pedras da Irlanda, as árvores muito antigas em campos muito verdes da Inglaterra, as casas francesas com jardins onde há sempre uma mesa à espera da família e dos amigos, os palazzos italianos e as estradas ladeadas de ciprestes, os subúrbios das cidades e os pueblos de Espanha.


A geografia da alma também se revela através dos escritores e realizadores.

A Suécia, por exemplo, é para mim a Suécia de Ingmar Bergman: limpa, fria, minimalista, sóbria até nas emoções, mesmo que rodeada de flores no Verão. A beleza da sua alma está na revelação da verdade sem rodeios. E bastam duas ou três frases para dizer tudo. Ou apenas um gesto, ou uma expressão facial. Liv Ullmann é o seu rosto.

Mas a Dinamarca, a Dinamarca para mim é a Dinamarca de Hans Christian Andersen.

 

 

De que matéria é feito o primeiro - ministro desse reino da Dinamarca que propôs a lei da espoliação dos que fogem da guerra? Será que este exemplar é uma parte da geografia da alma da Dinamarca? É que não vi nenhum movimento de dinamarqueses revoltados com esta lei.


Espero que os refugiados consigam mudar a rota da sua travessia ao frio e à neve, que se consigam desviar desse reino onde já não há alma nem coração.

 

 

Post publicado n' A Vida na Terra.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:39

As mulheres e o seu papel fundamental nos valores culturais de uma comunidade

Domingo, 05.05.13

  

Este post é dedicado às mulheres, às mulheres que seguem os valores da verdadeira responsabilidade por si próprias, pela defesa do seu lugar e papel numa comunidade e país, na forma como lidam com os mais próximos, pelos valores que transmitem aos filhos.

 

Contrariamente ao que se julga, aceitar a própria vulnerabilidade e desamparo, é o primeiro passo para a verdadeira autonomia. E é a forma saudável de não se deixar entalar no papel de vítima.

A vítima receia o agressor, é o medo que a transforma numa vítima.

Quando uma pessoa aceita a sua própria fragilidade e é capaz de ultrapassar a tentação de se identificar com os falsos heróis como compensação, torna-se mais forte e vacinada contra a vitimização (conformismo).

É na sua capacidade de empatia com os outros seus iguais no desamparo e na fragilidade, próprias da sua humanidade, que se torna mais forte e vacinada contra a lógica da violência, a sedução de discursos competitivos e bélicos, e distingue perfeitamente a mentira (artificialidade) da verdade (autenticidade).

 

A história está cheia de mulheres que seguiram a lógica do poder através do filho, incutindo-lhe os valores da cultura do egocentrismo, do culto do herói, da competição em que só o mais forte sobrevive. No fundo, o seu amor maternal é contaminado e adulterado pela manipulação, pela linguagem do poder. Assim se explica o sentimento de posse, o filho é um prolongamento de si, não é um ser livre.

Também o fazem através do exemplo que dão às filhas, de alguém que se rendeu à lógica do poder e o utiliza na forma em que se tornou especialista: na manipulação, no sentimento de posse. As filhas, também elas, se renderão ao culto do herói (e da heroína que o manipula).

Hoje vemos uma transição: enquanto as suas mães utilizaram a sua imagem (aprovação social) e culpabilizaram os homens e filhos de não serem suficientemente homens, de não conseguirem a tal promoção, etc, exibindo o homem e os filhos como troféus, as suas filhas levaram esta cultura mais longe utilizando-a na promoção da sua carreira profissional, mimetizando o papel competitivo masculino.

 

Se estas foram as únicas possibilidades de sobrevivência das mulheres num mundo masculino? Certamente. Mas será que hoje a lógica do poder e da manipulação são formas saudáveis de afirmação do papel da mulher?

Lembrar que hoje temos um lugar e um papel na comunidade, podemos intervir e participar, porque muitas mulheres se colocaram em perigo e foram afirmando a sua voz sem seguir a lógica do poder, sem perder a capacidade de empatia e compaixão.

As mulheres podem participar numa mudança cultural profunda, tal como esta corajosa advogada iraniana Shirin Ebadi:

 

 

 

 

As mulheres podem perpetuar a linguagem do poder masculina através da influência cultural sobre os filhos, nos rapazes sobretudo, mas também nas filhas, ou podem romper com essa lógica dominante e cultivar a cultura da colaboração, do respeito por si próprio e pelo outro, da empatia e compaixão, da verdadeira autonomia.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:42

Que valores estão as mulheres na política activa a defender?

Domingo, 21.04.13

 

Num recente programa Política Mesmo da tvi 24, com Paulo Magalhães, 4 deputadas, Francisca Almeida do PSD e Teresa Anjinho do CDS/PP de um lado, Marisa Matias eurodeputada pelo BE e Paula Santos do PCP do outro, ainda pensei: para variar vamos ver o que estas mulheres têm para nos dizer, já cansa ouvir só homens e debates entre egos masculinos. Mas mal sabia eu a decepção que iria ter... 

 

Francisca Almeida, deputada do PSD, com a sua voz estridente que se deve ouvir nos cantos da sala da assembleia, com argumentos bem assimilados tipo propaganda governativa e a papaguear mais alto do que as adversárias, uma estratégia tão cara aos deputados da assembleia mas insuportável num debate para espectadores que querem ser informados, revelou estar apenas preocupada em defender o seu lugarzinho no parlamento e em defender o chefe.

 

Teresa Anjinho, do CDS/PP, parecia uma bonequinha de plástico muito in num certo meio e muito bem comportadinha (o nome fica-lhe bem), um exemplo de mimetismo social (a personagem que me surgiu foi Leonor Beleza) de que sofrem os políticos e todas as pessoas com ambições sociais: imitar o mentor idealizado, uma necessidade de aprovação social e o discurso certo para o efeito. Caricata a elaboração da sua pergunta à eurodeputada do BE em que inclui a resposta na própria pergunta, com o seu ar autoritário. De resto, apenas retórica e propaganda.

 

Na verdade, depois de as ter visto e ouvido pela primeira vez, verifico que não estamos perante mulheres já feitas, autónomas, corajosas, e que sabem pensar pela sua própria cabeça, mas debutantes mimadas, que nada sabem da vida, das pessoas que dizem representar, do país que dizem defender, e que dependem da sua capacidade de agradar ao seu grupo de referência (aprovação social). Uma verdadeira decepção.

Como um dia as duas irão verificar, quando adquirirem alguma maturidade, estão culturalmente obsoletas, cada uma no seu género e no que representa, renderam-se à linguagem do poder essencialmente masculina, do mais forte a submeter o mais fraco, considerando normal e saudável a manutenção da cultura da caridadezinha, da vocação assistencialista do Estado. Falam de emergência mas sem qualquer emoção. O que as move é apenas garantir o pagamento do empréstimo aos credores, por mais agiotas que se revelem actualmente.

 

Do outro lado: Paula Santos, do PCP, também desconhecida para mim. Embora tenha dito uma ou outra verdade e embora revele saber o que está em jogo, o seu enquadramento político está desactualizado. Mas foi dela o punch certeiro a Teresa Anjinho e a Francisca Almeida desmontando a sua perspectiva caritativa e assistencialista. Aqui esteve perfeita: de facto, podemos dizer que esta é uma questão de classes, os grupos privilegiados (banca, grandes grupos económicos), contra o resto da população portuguesa. Revela conhecer de perto a vida diária dos cidadãos, as dificuldades sentidas nos hospitais, nas escolas, os cortes nos subsídios de desemprego, as dificuldades das famílias, e que seria essencial valorizar salários e pensões para dinamizar o nosso mercado interno, assim como as pequenas e médias empresas, etc.

 

E finalmente Marisa Matias, eurodeputada pelo BE, a única com quem consegui sentir uma afinidade cultural, a única que se revela empenhada num propósito maior do que o seu ego, e isso percebe-se desde logo pela informação de que dispõe, pelo entusiasmo genuíno, pelos argumentos fiáveis e baseados no essencial. Revelou estar bem informada sobre o que está a acontecer na Europa e no país e saber exactamente o que está em jogo.  Revelou aqui verdadeira empatia com os cidadãos, percebemos que não é retórica nem simples propaganda. É uma mulher de acção. Já a conhecia de uma reportagem sobre a sua intervenção no parlamento europeu, em que ficamos inspiradas sobre o que uma mulher pode fazer para exigir uma informação correcta, a defesa dos cidadãos europeus negligenciados, a divulgação de autênticas situações de crise humanitária. Uma mulher feita, que pensa pela sua própria cabeça, que tem os neurónios a funcionar, a empatia a funcionar, a capacidade de agir de forma inteligente e consequente. Só uma mulher autónoma, que sabe observar e intervir, pode inspirar-nos, mulheres, a observar e participar. E qual foi a informação crucial que esta eurodeputada nos trouxe? A seguinte:

Passou em votação no parlamento europeu um Relatório de actividades do BCE com um parágrafo com uma recomendação para reverter para os países intervencionados as suas mais-valias com a dívida desses países: 3 mil M€/ano. Dá para acreditar? (Já Francisco Louçã, aliás, o tinha revelado no dia anterior no mesmo programa da tvi 24, ao apresentar o livro Isto é um assalto, que só com a dívida portuguesa o lucro do BCE corresponde a 1,5 mil M€/ano).

E sabem quem votou contra? Precisamente: os eurodeputados do PSD e do CDS.

Está tudo dito.

 

 

Quanto à análise que aqui deixo sobre as mulheres: a questão aqui não é o partido x ou y, a questão é:

Que valores estão as mulheres na política activa a defender?

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 20:20

O perfil presidencial é essencial, não a experiência

Quarta-feira, 05.01.11

 

E aqui continuo as minhas reflexões sobre as próximas eleições presidenciais. Nem sei explicar muito bem este meu interesse neste ritual cíclico da República. Preferia a continuidade do Rei, preparado para tal e com a legitimidade própria da continuidade simbólica (e aqui simbólica tem um valor mais rico, de valores estruturantes e de uma identidade cultural, as coisas essenciais da permanência). Mas não tendo ainda o Rei de volta, resta-nos um Presidente.

Talvez as duas razões principais deste meu interesse (até acompanhei entrevistas e debates), sejam:

- a nossa precária situação actual a todos os níveis, o que nos torna muito vulneráveis (e um Presidente pode atenuar ou reforçar as dificuldades previstas);

- o facto do sistema se ter começado a revelar (ups!, o sistema tornou-se visível!) e o próprio cidadão comum ter começado a perceber quem é quem no sistema em que ele, cidadão comum, não conta, a não ser para alimentar o seu estatuto e o seu nível de vida (votando e pagando impostos, isto é, enquanto eleitor e contribuinte).

 

Como é que um Presidente pode contribuir para atenuar as dificuldades? Pela sua influência, pela sua intervenção adequada, pelo que afirma, pela sua convicção interior, pela liderança de ideias e de uma atitude, pela empatia com os cidadãos que representa. A sua influência também pode ser exterior, é diferente ter alguém que percebe os tempos de alguém que está dessincronizado noutra onda. Precisamos de um perfil presidencial para o país, numa situação aflitiva e vulnerável, e para o séc. XXI.

 

Em relação ao sistema, o pior que lhe poderia ter acontecido foi tornar-se visível. Enquanto se podia colar ao regime e aos seus valores, à democracia, aos interesses nacionais, tudo lhe corria de feição. De qualquer modo, o séc. XXI convive mal com sociedades secretas ou pactos de classe, de elites que se mantêm no poder muito tempo, sem outra legitimidade a não ser a sua arrogância cultural, e a subserviência dos restantes. Mas se não tivessem puxado demasiado a corda, ter-se-iam aguentado mais uns anitos. 15 anos de socialismo foram-lhe fatais. E não estou a contar com os 10 anos de cavaquismo, que também contribuíram.

 

Vivemos, de facto, tempos socio-politicamente interessantes. Agora, pondo por segundos de parte a nossa desgraça nacional (conjuntura e lideranças políticas no poder), reparem bem no que está a suceder: as pessoas comuns, digamos assim, estão a abrir os olhos. Foi preciso ver o país afundar-se em dívidas externas, as pessoas à porta das fábricas e empresas fechadas, a grande debandada migratória, conterrâneos a passar fome, para acordar. Enquanto a desgraça não lhes bateu à porta, deixaram-se embalar pela grande mentira e a grande ilusão. Mas agora começaram a ver o que até então não viam ou não queriam ver: há um sistema organizado, uma elite protegida, acima da lei universal, acima do escrutínio público, que vive à sua custa, enquanto eleitor e contribuinte. Directa ou indirectamente, porque há a informação privilegiada, portas que se abrem, créditos que se desbloqueiam, leis com excepções que se asseguram, etc. etc.

 

People know... people know... diz o nosso herói em Thunderheart, quase no final daquela saga de índios despojados das suas terras para reservas áridas e inférteis, mas onde se descobrira urânio. Estamos mais ou menos nessa parte da história, colocaram-nos a pão e água como os índios, estragaram-nos a escola, como os índios, já se passa fome, como os índios, e ainda nos vêm pedir batatinhas na sua sofreguidão voraz, querem sugar o que pouco que resta: os impostos, o IVA, o corte cego do abono de família, a conta da EDP, o preço dos combustíveis, o buraco do BPN, as público-privadas que aí vêm, as excepções na administração pública e nas empresas públicas, e ainda se fala no TGV, etc. etc.

O filme acaba com a revelação do sistema, os suits, o FBI, os que pretensamente defendem o povo, mas que apenas defendem o sistema, a organização do poder. A partir daí, tornou-se muito mais difícil ao sistema manter a exploração de urânio e arranjar bodes expiatórios entre os índios. Muito gosta o sistema e o poder, organizado de forma corporativa, de segredinhos e de bodes expiatórios. Vive, aliás, nessa cultura, de pactos mútuos, de uma confiança baseada no interesse comum e na chantagem implícita. Isto dava mesmo um filme... mas prefiro este paralelismo com o Thunderheart. Até porque gosto muito deste nome que mistura trovão e coração.

 

 

Só mais um ponto para reflexão: Um dos argumentos republicanos preferidos é precisamente o de qualquer cidadão se poder candidatar e vir a ser eleito Presidente. Uma perspectiva muito poética e democrática, não acham? Pois não é nada assim que as coisas se passam.

Ontem, na Grande Entrevista de Judite de Sousa a Fernando Nobre, ficámos a saber das dificuldades colocadas à partida a qualquer candidato-cidadão português que tenha a pretensão de se candidatar à Presidência:

- enquanto os candidatos apoiados por partidos políticos podem receber donativos de empresas sem um limite fixado, os candidatos independentes só podem receber donativos de particulares até ao montante de 24 mil e tal euros;

- enquanto os candidatos apoiados por partidos políticos estão isentos de IVA, os candidatos independentes pagam IVA.

Onde está a tal equidade de que se gabam? A tal igualdade de condições na linha de partida da corrida? Não existe.

O jogo está viciado à partida para defender o sistema. O sistema não brinca em serviço. Protege-se. O candidato com mais condições de ser eleito já foi escolhido pelo sistema. Portanto, este é mais um argumento republicano democrático que cai por terra.

É preciso, de facto, uma grande dose de loucura e uma grande coragem para correr o risco de uma candidatura independente. Mas, como disse Fernando Nobre ontem, esta é uma oportunidade única de ver um cidadão na Presidência. E que talvez ainda passem muitos anos até um outro cidadão arriscar concorrer.

Bem, com o seu perfil, dificilmente voltaremos a ver um candidato independente. Se ao menos não tivesse ficado colado a Mário Soares logo na primeira entrevista com Miguel Sousa Tavares... Surgiu de imediato a lógica anti-Alegre, que condicionou a sua candidatura. Ontem tentou mostrar-nos que a sua iniciativa é pessoal, que o seu percurso de liderança de equipas em circunstâncias muito adversas, e algumas mesmo de situações-limite, o prova. Este argumento baseado no percurso pareceu-me bastante fiável: a realidade fala sempre por si. E a situação actual do país é de emergência. Outra condição que me parece ter acabado por atenuar esse primeiro equívoco é ter tido o apoio de pessoas comuns, cidadãos comuns, voluntários. Talvez porque as sondagens o tenham subvalorizado, a sua candidatura perdeu interesse estratégico... Quem ganhou foi o próprio candidato que agora pode, de facto, afirmar de forma inequívoca, a sua independência.

 

 

Voltando ao perfil presidencial, aqui vão algumas reflexões a que me fui dedicando num outro cantinho: HELP!, E o mundo mudou mesmo em quinze dias!, A agendinha do Professor Marcelo, E sobre as presidenciais não digo mais, Porque é que a direita não tem candidato presidencial?

 

 

E um desejo de 2008, que se poderia realizar em 2011, se a vida real imitasse a ficção científica (snif): Para um "novo cidadão" um "novo político".

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:20

Coisas essenciais: lembrar Sá Carneiro e Amaro da Costa

Terça-feira, 30.11.10

 

No próximo sábado, dia 4, irá celebrar-se uma missa em memória dos 30 anos da morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa, na Basílica da Estrela, às 17,00.

Esta é uma oportunidade única de prestar homenagem a duas referências nacionais: de visão política, de ética, de valores.

Lembrar que houve um tempo em que havia políticos assim, que colocavam os interesses nacionais à frente de vantagens pessoais, que geriam a sua estratégia política pelo que seria mais benéfico para o país e não em função de um calculismo limitado.

Para que as gerações futuras os conheçam também, e se orgulhem de exemplos assim, para que perdurem na nossa memória colectiva como marcos vivos de um tempo histórico, mas também como fontes de inspiração para novos caminhos.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:08

"Life on Mars"

Segunda-feira, 22.02.10

 

Meus queridos amigos, não se pode voltar para trás. Simplesmente não se pode.

Até o protagonista de Life on Mars, que foi parar a 73 por engano, não se sente em casa. Desconfio que não é apenas por ter perdido tudo, a família, os amigos, o trabalho, o habitat. É uma diferença cultural imensa! De hábitos, de valores, de referências, de coordenadas.

Podemos até especular: ah, os loucos anos 20, os românticos anos 40, ou até ser mais ousados, o tempo dos salamaleques e dos duelos, porque não?

Mas hoje temos acesso a essas épocas, pelos livros e pelos filmes, sem os inconvenientes das suas enormes dificuldades.

Estou convicta que cada época exige as suas capacidades de sobrevivência e que se tivessemos o azar do protagonista de Life on Mars de irmos parar ainda mais longe, aos anos 20 ou 40, ou pior!, ao séc. XIX, não sobreviveríamos muito tempo. A nossa resistência de estufa, habituada a vacinas e comprimidos? Impossível mantermo-nos lá saudáveis por muito tempo.

 

Isto tudo para dizer o quê? Que a nível cultural, das referências e dos valores, mesmo os que não são assimilados por todos ou partilhados por todos, há já uma informação, um conjunto de factos, que foram interiorizados na memória colectiva. Factos que não se podem apagar simplesmente. É uma herança de um colectivo.

 

As excepções? As tribos isoladas de alguns pontos do globo, os Amish, os Mórmons, etc. O que implica necessariamente isolamento total ou quase total da contaminação cultural da sociedade, como está organizada.

Também incluiria aqui algumas populações de países mais pobres que, conforme Alvin Toffler previu, estão a ficar excluídas da informação global. E mesmo nos países com recursos, aumentarão essas franjas de excluídos, como ele previu.

 

Para o bem e para o mal, somos portadores de uma memória colectiva, de um conjunto de factos, de dados, de informação, a que já não podemos escapar ou negar. Herdámos esses manuais, esses dicionários, esses acontecimentos, essas alterações, a evolução tecnológica, científica, filosófica.

Voltar atrás é negar tudo isso. A nossa consciência colectiva já deu um salto, nem sei bem se será apenas um degrau ou dois, vejo-o mais como um salto sobre uma falha no caminho. Saltámos por cima de tanta coisa!, mesmo sobre valores éticos e morais que se julgaram intransponíveis.

Por outro lado, passámos a valorizar outros valores: a vida humana, por exemplo, adquiriu outro estatuto, embora ainda com imensas falhas. Na protecção das crianças e dos mais velhos, por exemplo, andámos mal, muito mal.

Mas na aceitação das diferenças de estilos de vida, vejam o enorme salto! As mulheres mais aguerridas pisaram o risco, nunca antes tolerado pelos homens, começaram a participar em áreas e a conquistar direitos. Este é aliás um dos pormenores culturais que mais choca o protagonista do Life on Mars e já se estava em 73!


 

2ª parte do post (ver Nota de esclarecimento):

A complexidade da natureza humana e a complexidade dos comportamentos, das opções de vida, não pode agora ser apagada da nossa memória colectiva, porque isso seria negar o avanço cultural, filosófico, científico. Mas pior!, seria negar a própria natureza humana!

O filme agora aí, Um Homem Singular, mostra isso, essa complexidade. Talvez daí o interesse dos espectadores: tem tido uma boa audiência. Essa curiosidade pode dever-se a Tom Ford, mas alguma coisa me diz que estamos ávidos de uma perspectiva, de uma compreensão, sobre a complexidade humana.

 

Nunca falámos colectivamente sobre isso, foi-nos imposto um modelo de vida, como se se tratasse de uma moda, a camada superficial do tema, a parte espectacular, confundindo público e privado, e ainda por cima uma lei fracturante, que nem sei se é a que melhor responde a direitos equivalentes à da maioria dos cidadãos e à forma como a maioria organiza a sua vida.

Mas agora responder a esse erro com outro erro, é que não me parece avisado e sensato. Trata-se de pessoas, das suas vidas, de naturezas e percursos. E trata-se de liberdade também. Já não podemos andar para trás. Nem seria desejável.

É por isso, a meu ver, que este filme Um Homem Singular, é um bom ponto de partida para uma análise e uma reflexão colectiva, calma e distanciada. Distinguindo os planos, destacando as prioridades, vantagens e desvantagens deste e daquele modelo.

Talvez até dê para, os que se organizam de forma diversa, com diferentes opções de vida e de organização familiar, verificarem se se revêem nas associações e organizações que os representam, ou mesmo na forma como os partidos pegaram (abusiva e oportunísticamente, a meu ver) nas suas pretensões, a forma como o fizeram, perfeitamente inábil. E recomecem do zero. Esta lei não lembra ao diabo, realmente, e poucos darão esse passo, o casamento. Muitos certamente desejariam outro tipo de contrato, equilibrado nos direitos e específico a cada situação.

 

Agora, não dar sequer ao outro o direito de existir apenas por ser diferente, é que me deixa perplexa. De certo modo já esperava reacções excessivas a propagandas que foram, também elas, excessivas, mas negar a existência do direito de existir aos homossexuais? Negar a homossexualidade?

Foi sempre a negar alguma parte da natureza humana, que surgiram as maiores opressões ditatoriais. Esta negação, esta agressividade a que pode chegar este debate, é também um sinal de alarme.

Numa democracia respeitam-se as diferenças e procura-se equilibrar direitos e deveres de todos os cidadãos. É também esse o significado da liberdade. E também foi esse o significado de estar no dia 11 em frente da AR.





Nota de esclarecimento a 20 de Outubro de 2013: Primeiro pensei simplesmente deletar as partes dos posts que já não correspondem à minha actual assimimilação-síntese cultural. Esta mudança afinal até pode corresponder apenas a um regresso à minha consciência vital inicial.

Depois ocorreu-me o seguinte: além de ser batota apagar o que nos deixa hoje perplexos, o quê?, já pensámos assim?, o quê?, porque não utilizar essa transição mental-cultural como um magnífico e útil exemplo de que estamos sempre a mudar, a evoluir, a expandir a consciência?

Portanto, caros Viajantes, a parte deste post após a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, já não corresponde minimamente ao que hoje considero lógico-compreensível-viável-legítimo. E vou mais longe: é muito provável que nunca tenha sido uma questão essencial para mim mas apenas uma teimosia mental, um pormenor legislativo que não me pareceu lógico na altura.

Desde que me conheço que aceitei as pessoas incondicionalmente. Cresci rodeada de livros e filmes e isso marca uma pessoa. Penso que parte do choque cultural que senti quando saí dessa cápsula inicial familiar, e dos equívocos que sofri nas interacções sociais e que me tornaram mais tímida e ansiosa do que era inicialmente, se deveram precisamente a esse mundo que assimilara nos livros e filmes que me tinham alargado definitivamente as fronteiras culturais.

Por isso imaginem a minha perplexidade ao reler esta segunda parte do post que já nada me diz pessoalmente. Como perdi eu tempo com pormenores legislativos? Porque me envolvi em debates que hoje já não fazem qualquer sentido? Porque considerei que sabia o que era melhor para quem tentava encontrar uma nova forma de oficializar social e juridicamente uma família?

Mas a primeira parte do post aproveita-se, a meu ver, é uma ideia que me tem acompanhado quendo ouço falar em viagens no tempo ou em contactos com espécies de outros planetas. Isso sim, é que é um desafio mental que vale a pena.


   

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:42

...

Sábado, 12.07.08

 

Este lugar não existe no mapa

daí o seu lado mágico

 

Neste lugar conheci pessoas

ligadas às coisas autênticas e essenciais

 

Precisamos de raízes

mas precisamos acima de tudo de nós próprios



 

                                   

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:20








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